II. A FENOMENOLOGIA E SUAS
RELAES cOM A PSICOLOGIA

1 - Introduo 
Este captulo foi elaborado com suporte nas principais idias de Husserl, por ter sido ele 
o iniciador da Fenomenologia moderna, na qual est fundamentado o mtodo que adoto neste 
trabalho. 
Alm desse renomado filsofo, recorri, tambm, a ensinamentos de Merleau-Ponty, por 
ter sido importante continuador de Husserl e por ter desenvolvido as idias deste, no sentido 
de esclarecer as possibilidades de articulao entre a Fenomenologia e a Psicologia. 
No tive a preocupao de comparar as idias de tais filsofos e nem de apresentar a evoluo 
do pensamento de Husserl. Meu objetivo foi, apenas, ode apresentar, resumidamente, as 
principais idias deste filsofo e ampli-las com formulaes de Merleau-Ponty para tentar 
mostrar a viabilidade de sua utilizao no campo da Psicologia. 
Preliminarmente, apresento, de modo sucinto, o panorama da poca na qual surgiu a 
Fenomenologia de Husserl, para facilitar a compreenso de suas idias; e a seguir, os temas 
que considerei importantes para o esclarecimento do seu mtodo. 
Os dez ltimos anos do sculo XIX, que antecederam as publicaes de Husseri sobre 
a Fenomenologia, 
se caracterizam, na Alemanha pela derrocada dos grandes sistemas filosficos 
tradicionais...  a cincia que doravante preenche o espao deixado vazio pela filosofia 
especulativa e, sobre o seu fundamento, o positivismo, para o qual o conhecimento objetivo 
parece estar definitivamente ao abrigo das construes subjetivas da metafsica. (Dartigues, 
1973, p. 16.) 
Entretanto, nesse mesmo perodo, a segurana do pensamento positivista tambm 
comea a ser abalada, com questionamentos relativos aos fundamentos e ao alcance de seus 
14 YOLANDA CINTRO FORGHIERI 
postulados, em virtude de serem elaborados por um sujeito concreto, ficando, portanto, 
dependentes do psiquismo humano. 
A essas questes, os ltimos ramos do pensamento kantiano ou neokantiano tentam 
responder, concebendo um sujeito puro que asseguraria a objetividade e a coerncia dos 
diferentes domnios do conhecimento objetivo. (Idem, p. 17.) 
Mas as dvidas quanto  existncia desse sujeito puro e as preocupaes com o sujeito concreto 
em sua vida psquica imediata passam a ter predominncia nessa poca, preparando o terreno para o 
aparecimento da Fenomenologia moderna. Entre as obras importantes, que para ela contriburam, 
encontram-se as dos filsofos Brentano (Psicologia do Ponto de Vista Emprico, 1884) e Dilthey 
(Idias Concernentes a uma Psicologia Descritiva e Analtica, 1894), que censuram as cincias 
humanas  especialmente a Psicologia por terem adotado o mtodo das cincias da natureza, cujo 
objeto de estudo  diferente. Dilthey afirma que a natureza s  acessvel indiretamente, a partir de 
explicaes sobre fatos e elementos, mas que a vida psquica  uma totalidade da qual temos 
compreenso intuitiva e imediata; considera que o sentimento de viver  o solo verdadeiro das 
cincias humanas e o mtodo compreensivo, o nico adequado  sua investigao. 
Brentano, cujas idias exerceram grande influncia no pensamento de Husserl, estabelece profundas 
diferenas entre os eventos fsicos e os fenmenos psquicos, afirmando que nestes existe 
intencionalidade e um modo de percepo original, imediato. Prope o retorno s experincias 
vividas e a descrio autntica destas, livre de todo o pressuposto gentico ou metafsico; suas 
investigaes, porm, permaneceram limitadas ao mbito da Psicologia (Kelkel e Scherer, 1982). 
Nesse panorama surgem, no incio do sculo XX, as primeiras obras sobre Fenomenologia, de 
Husserl (1901, 1907, 1911), que, embora partindo das idias de Brentano sobre a intencionalidade, 
vai alm deste, investigando-a na vivncia de conscincia como tal, e chegando a uma anlise 
profunda do conhecimento, que ultrapassa os limites da Psicologia. Sua obra consiste, sobretudo, em 
problematizar o prprio conhecimento e na apresentao da Fenomenologia como o nico mtodo 
para chegar a verdades apodcticas, evidentes. Pretende, atravs deste, estabelecer o fundamento 
radical da Filosofia, bem como a base primordial de todo o saber humano. 
II - Temas Fundamentais 
1. O retorno s coisas mesmas e a jntencionalidade 
Questionando os sistemas especulativos da Filosofia e as teorias explicativas das 
cincias positivas, Husserl prope retornar a um ponto de partida que seja, verdadeiramente, 
o primeiro. 
A FENOMENOLOGIA E SUAS RELAES COM A PSICOLOGIA 15 
No  das Filosofias que deve partir o impulso da investigao, mas sim das coisas e dos 
problemas... Aquele que  deveras independente de preconceitos no se importa com uma 
averiguao ter origem em Kant ou Toms de Aquino, em Darwin ou Aristteles... Mas  
precisamente prprio da Filosofia, o seu trabalho cient (fico situar-se em esferas de intuio 
direta. (Husseri, 1965, pp. 72 e 73.) 
Afirma querer voltar s coisas mesmas, considerando-as como o ponto de partida do 
conhecimento. Entretanto, a coisa mesma  entendida por ele no como realidade existindo em si, 
mas como fenmeno, e o considera como a nica coisa  qual temos acesso imediato e intuio 
originria; o fenmeno integra a conscincia e o objeto, unidos no prprio ato de significao. A 
conscincia  sempre intencional, est constantemente voltada para um objeto, enquanto este  
sempre objeto para uma conscincia; h entre ambos uma correlao essencial, que s se d na 
intuio originria da vivncia. 
A intencionalidade , essencialmente, o ato de atribuir um sentido;  ela que unifica a conscincia e 
o objeto, o sujeito e o mundo. Com a intencionalidade h o reconhecimento de que o mundo no  
pura exterioridade e o sujeito no  pura interioridade, mas a sada de si para um mundo que tem 
uma significao para ele. 
2. A reduo fenomenolgica e a intuio das essncias 
A reduo  o recurso da Fenomenologia para chegar ao fenmeno como tal, ou  sua essncia; 
pode ser sintetizada em dois princpios: um negativo, que rejeita tudo aquilo que no  
apodicticamente verificado; outro positivo, que apela para a intuio originria do fenmeno, na 
imediatez da vivncia. 
Na vida cotidiana temos uma atitude natural diante de tudo o que nos rodeia, acreditando que o 
mundo existe por si mesmo, independentemente de nossa presena. A atitude natural, no refletida, 
ignora a existncia da conscincia, como a doadora de sentido de tudo o que a ns se apresenta 
no mundo. Por isso  necessrio refletir sobre nossa vida cotidiana, para que se revele a existncia 
de nossa conscincia. Desse modo, suspendemos, ou colocamos fora de ao, a nossa f na 
existncia do mundo em si e todos os preconceitos e teorias das cincias da natureza dela 
decorrentes. Deixamos fora de ao, tambm, a conscincia, considerada independentemente do 
mundo, e as teorias das cincias do homem, como a Psicologia, elaboradas a partir desse 
preconceito. 
A reduo no  uma abstrao relativamente ao mundo e ao sujeito, mas uma mudana de atitude  
da natural para a fenomenolgica  que nos permite visualiz-los como fenmeno, ou como 
constituintes de uma totalidade, no seio da qual o mundo e o sujeito revelam-se, reciprocamente, 
como significaes. 
No que diz respeito  teoria do conhecimento propriamente dita, s atingimos a plena 
evidncia do fenmeno na concordncia entre a intuio e a significao, pois os conceitos 
16 YOLANDA CINTRO FORGHIERI 
sem intuio esto vazios. A significao no  preenchida apenas na intuio sensvel, mas na 
intuio eidtica, ou categorial, na qual a evidncia da essncia, ou a coisa mesma, tem 
acabamento. 
A essncia (Eidos)  um objeto de um novo tipo. Tal como na intuio do indivduo ou 
intuio emprica, o dado  um objeto individual, assim o dado da intuio eidtica  uma 
essncia pura. (Husserl, 1986, p. 21.) 
Mas a intuio eidtica no implica numa atitude mstica, no devendo ser entendida 
como uma extrapolao da intuio sensvel para um domnio supra-sensvel, pois  sempre 
fundada no sensvel, sem se confundir com ele. 
No h intuio da essncia se o olhar no tem a livre possibilidade de se voltar para um 
indivduo correspondente e de adquirir a conscincia de um exemplo; em contrapartida, no 
h intuio do indivduo sem que se possa operar livremente a ideao e, ao faz-lo, dirigir o 
olhar sobre a essncia correspondente, que a viso do indivduo ilustra como um exemplo. 
(Idem, p. 22.) 
Entretanto, embora estejam inteiramente relacionadas, essas duas classes de intuio 
so, em princpio, distintas. As distines entre elas correspondem s relaes essenciais 
entre existncia (no sentido do que existe como indivduo) e essncia. 
Introduzindo a noo de viso das essncias (Wesenschau), Husserl procura fundamentar um 
processo de conhecimento ao mesmo tempo concreto e filosfico, ligado  
vivncia e capaz de universalidade, atravs do particular. 
Assim sendo, o estudo da vivncia, efetuado pela Psicologia, pode levar  descoberta de essncias, 
pois o conhecimento dos fatos implica uma viso da essncia, mesmo que quem o pratique esteja 
preocupado apenas com os fatos. Isto no significa que exi st uma Psicologia apriori, ou uma 
Psicologia dedutiva, pois a viso das essncias consiste ma constatao eidtica, devendo a 
Psicologia Fenomenolgica ser uma cincia basicamente descritiva. Em outras palavras, no h um 
sistema de axiomas, como na Matemtica, atravs do qual o psiclogo poderia construir as 
diferentes entidades ou realidades psquicas; isto porque, quando refletimos sobre nossa vivncia ou 
ade nossos semelhantes, no descobrimosessncias exatas, isto , suscetveis de uma 
determinao unvoca, mas essncias morfolgicas, inexatas por essncia e cujos conceitos so 
descritivos (Husserl, 1986, p. 163). 
O psquico  vivncia averiguada na reflexo auto-evidente, num fluxo absoluto, como atual 
ej esmorecendo, perdendo-se constantemente e evidentemente num passado. O psquico est 
integrado numa continuidade geral mondica da conscincia, numa unidade prpria que 
nada tem a ver com o Tempo, o Espao e a causalidade. (Husseri, 1965, p. 33.) 
A FENOMENOLOGIA E SUAS RELAES COM A PSICOLOGIA 17 
A ideao que chega s essncias morfolgicas, cuja extenso  flexvel e fluida,  
radicalmente distinta daquela que apreende as essncias por simples abstrao, chegando a 
conceitos ideais fixos e exatos. As essncias da vivncia no so abstratas, mas concretas. 
(Husseri, 1986, p. 163.) 
A Fenomenologia pertence s disciplinas eidtico-concretas, propondo-se a ser uma 
cincia descritiva das essncias da vivncia. (Idem, p. 166.) Por isso encontra-se intima- 
mente relacionada  Psicologia, fornecendo-lhe os seus fundamentos. 
Assim, a Fenomenologia  a instncia para julgar as questes metodolgicas bsicas da 
Psicologia, O que ela afirma, em geral, o psiclogo precisa reconhecer, como condio da 
possiblidade de toda sua metodologia ulterior. (Idem, p. 
188.) 
3. A reflexo Jnomenolgica, o mundo da vida e a intersubjetividade 
O mtodo fenomenolgico move-se, integralmente, em atos de reflexo , mas a reflexo tem, 
aqui, um sentido prprio que precisa ser esclarecido (Husseri, 1986,p. 172). 
O eu vive no mundo, mas no se encontra delimitado quilo que vivencia no momento atual, pois 
pode, tambm, dirigir seu pensamento para o que j vivenciou anteriormente, assim 
como para as prospeces que faz em relao a coisas que tem a expectativa de vir a vivenciar. 
O psiclogo, na atitude natural, considera todos esses acontecimentos como fatos, procurando 
estabelecer relaes entre eles e deles com outros fatos, para explicar o psiquismo 
humano. 
Porm, ele pode refletir sobre tudo isto, em atitude fenomenolgica tanto em nvel superior de 
universalidade, ou de acordo com aquilo que se pe de manifesto como essencial, para formas 
especiais de vivncia. Neste caso, todos aqueles fatos e explicaes so colocados entre parnteses 
ou fora de ao, permitindo a reflexo sobre a experincia variada da vivncia, chegando ao que lhe 
 essencial, ou invarivel nas suas transformaes. 
Se eu considerar o exemplo de uma vivncia de alegria, na qual eu desapareo, ao 
completar um trabalho com eficincia; fizer uma suspenso dos fatos nela envolvidos e 
refletir sobre o seu agradvel decorrer, 
a alegria se converte na vivncia visualizada e imediatamente percebida, que flutua e 
declina deste ou daquele modo, ante a mirada da reflexo... A primeira reflexo sobre a 
alegria encontra-se presente com esta, atualmente, mas no como iniciante nesse mesmo 
momento. A alegria est a como algo que segue durando, j anteriormente vivido, no que 
apenas no se haviam fixado os olhos. (Husseri, 1986, p. 174.) 
18 YOLANDA CINTRO FORGHIERI 
Posso, ento, refletir sobre a reflexo da alegria e fazer uma distino entre a alegria 
vivida mas no visualizada e a alegria visualizada, e, igualmente, as modificaes que trazem 
consigo os atos de apreender, explicitar etc., que entram em jogo na visualizao da mesma. 
As reflexes, por sua vez, tambm so vivncia e podem, enquanto tal, tornar- 
se substratos de novas reflexes, e assim ad infinitum. (Idem, p. 173.) 
Entretanto, embora possa refletir sobre a vivncia reflexiva, esta, em ltima anlise, 
remonta ao mundo da vida, ou  minha vivncia imediata, pr-reflexiva. 
A vivncia originria, em sentido fenomenolgico... tem em sua concreo 
apenas uma fase absolutamente originria, embora em fluxo contnuo, que  o 
momento do agora vivo. (Idem, p. 177.) 
Esse agora vivo perene  o ponto de partida de todas as nossas reflexes. Porm,  apenas 
refletindo sobre minha vivncia reflexiva que chego a compreender a minha vivncia originria como 
uma totalidade, ou um fluxo contnuo de retenes e protenses, unificado nesse agora vivo, que  
o mundo da vida. 
A reflexo fenomenolgica vai em direo ao mundo da vida, ao mundo da vivncia 
cotidiana imediata, no qual todos ns vivemos, temos aspiraes e agimos, sentindo-nos ora 
satisfeitos e ora contrariados. 
Os pensamentos, as representaes tm origem nessa vivncia pr-reflexiva, ou antepredicativa, 
que  anterior a toda a elaborao de conceitos e de juzos; at as mais abstratas e sofisticadas 
formulaes cientficas partem dessa vivncia. A cincia no comea quando articula uma teoria, 
resultante de suas investigaes; ela tem incio com a inteno do cientista ao desejar esclarecer um 
problema que surgiu em sua vivncia cotidiana. 
Por isso a Fenomenologia 
incita o cientista a reencontrar, numa cincia, sua prpria histria, que nela se 
sedimentou,... buscarem que, para alm de todas as mediaes, ela repousa sobre o mundo 
da vida e no no ar. (Husseri, referido por Dartigues, 1973, p. 80.) 
A suspenso fenomenolgica no  feita apenas em relao ao mundo, mas abrange, 
tambm, o prprio sujeito, que , ento, tomado como tema de reflexo, deixando aparecer 
o eu puro ou o ego transcendental, como expectador imparcial, apto a apreender tudo o que 
a ele se apresente como fenmeno. 
Todo o sentido e todo o ser imaginveis fazem parte do domnio da subjetividade 
transcendental, enquanto constituinte de todo o sentido e todo o ser... O ser e a 
A FENOMENOLOGIA E SUAS RELAES COM A PSICOLOGIA 19 
conscincia pertencem essencialmente um ao outro. (Extrato de Meditaes 
Cartesianas de Husseri, em KelkeI e Scherer, 1982, p. 101.) 
Sob outro aspecto, em sua vivncia cotidiana, os seres humanos, embora tenham suas prprias 
peculiaridades, existem todos no mundo, constituindo-o e constituindo-se, simultaneamente. 
Possumos, de certo modo, uma comunalidade, pois todos ns vivemos no mundo e existimos uns 
com os outros, com a capacidade de nos aproximarmos e de compreendermos mutuamente as 
nossas vivncias. A partir da intersubjetividade constituda em mim, constitui-se um mundo objetivo 
comum a todos. (Idem, p. 102). 
Assim sendo, o mundo recebe o seu sentido, no apenas a partir das constituies de um 
sujeito solitrio, mas do intercmbio entre a pluralidade de constituies dos vrios sujeitos 
existentes no mundo, realizado atravs do encontro que se estabelece entre eles. 
ifi - Possibilidades de Articulao entre a Fenomenologia 
e a Psicologia 
Este tema encontra-se enraizado na problemtica das relaes entre Filosofia e Cincia. 
A Filosofia apresenta-se como conhecimento da profundidade ou do fundamento; 
prope-se a captar a totalidade como tal e a individualidade como tal, interligando-as. Ela 
pretende eliminar, progressivamente, 
todas as instncias fundadoras que ainda s se apresentam afetadas por um certo carter 
de regionalidade... para chegar a um saber verdadeiramente universal, isto , saber da 
totalidade, no no sentido de um sistema que englobasse todos os conhecimentos, mas no 
sentido de uma apreenso de fundamentos universais . (Ladrire, 1977, pp. 180 e 181.) 
A tarefa caracterstica da Filosofia  elucidar a natureza prpria da vida universal, ou 
a gnese do mundo, mas ela tem que pagar por este empreendimento, com sua incapacidade 
de conhecer o mundo em seu contedo concreto. 
A Cincia apresenta-se como conhecimento da realidade concreta; visa a ser objetiva 
e a abranger um domnio particular, delimitado e sem profundidade. Sua prtica assumiu 
surpreendente xito na poca atual; 
suas implicaes no nvel de habilitao tcnica e sua universalidade revelam-se, cada vez 
mais, como forma privilegiada de conhecimento... trazendo a idia de que somente o mtodo 
cient (fico  capaz de nos obter uma viso do mundo que seja aceitvel. (Ladrire, 1977, p. 
6.) 
20 YOLANDA CTNTRO FORGHIERI 
Desse modo, assume uma posio reducionista e autoritria, pois 
... pretende aplicar a todos os domnios e todas as situaes aquilo que s  
legtimo e fecundo no domnio do ensinamento verificvel. (Idem, p. 157.) 
Examinadas sob a perspectiva acima descrita, de acordo com a qual vm sendo 
consideradas, tradicionalmente, a Filosofia e a Cincia, a Fenomenologia e a Psicologia 
seriam dois campos distintos do saber que se apresentariam como inconciliveis. 
Entretanto,  possvel, tambm, sob outra perspectiva, chegar a algumas aproximaes entre ambas. 
Assim, verifica-se que tanto a Cincia como a Filosofia aparecem como especificaes da idia de 
conhecimento racional, e na medida em que se apresentam como portadoras de uma metodologia 
da verdade, existe uma questo concernindo as relaes entre elas (Ladrire, 1977, p. 157). 
Poder-se-ia considerar que, sob um ponto de vista existencial, 
ambas constituem procedimentos globais em que o homem se compromete inteiramente e 
atravs dos quais tenta instaurar, de maneira satisfatria, suas relaes com o mundo e 
consigo mesmo. (Idem, p. 158.) 
A Fenomenologia de Husserl, contribuiu, consideravelmente, para a possibilidade de estabelecimento 
de relaes entre a Filosofia e a Psicologia, pois, embora ele tivesse a inteno de chegar ao 
fundamento do prprio conhecimento e de todo saber, tomou o mundo vivido como ponto de partida 
para realizar este seu ideal. Alm disso, Husserl no chegou a elaborar um sistema filosfico 
completo, pois revelou estar sempre revendo e recomeando este empreendimento, at o final de 
sua vida, sem chegar a reconhecer que o havia completado. Este fato pode ser observado em 
referncias que faz em algumas de suas obras, como no Eplogo de Idias Relativas a uma 
Fenomenologia Pura e uma Filosofia Fenomenolgica, onde afirma: 
Se por um lado o autor precisou praticamente rebaixar o ideal de suas aspiraes 
filosficas, ao de um simples principiante, por outro lado chegou, com a idade,  plena 
certeza de poder chamar-se um efetivo principiante... V estendida diante de si a terra 
infinitamente aberta da verdadeira Filosofia, a terra prometida que ele mesmo j no ver 
plenamente cultivada. (Husseri, 1913, traduo publicada em 1986, p. 304.) 
Ele chegou a sentir-se desanimado e desiludido, como quando afirmou na ltima de suas 
publicaes, editada originalmente em 1938, ano de sua morte: 
A FENOMENOLOGIA E SUAS RELAES COM A PSICOLOGIA 21 
Filosofia como cincia sria, rigorosa, apoditicamente rigorosa  sonho que se 
desfez. (1954, p. 508.) 
Aquiles von Zuben, durante a argio do meu trabalho de Livre-Docncia, informou- 
nos que Husseri, nos instantes que antecederam  sua morte, referindo-se  sua obra, disse  
enfermeira que o assistia: Eu precisaria comear tudo de novo. 
Todos esses fatos levaram-me a refletir sobre o inacabamento da Fenomenologia, 
reconhecido pelo seu prprio iniciador. 
Heidegger, que foi eminente discpulo de Husserl, tambm considera que a compreenso da 
Fenomenologia depende unicamente de apreend-la como possibilidade. 
O que ela possui de essencial no  ser real como corrente filosfica (Heidegger, 
1971, p. 49). 
Ela no  nenhum movimento, naquilo que lhe  mais prprio.  possibilidade de 
pensamento... de corresponder ao apelo do que deve ser pensado. (Heidegger, 1972, p. 107.) 
Segundo Merleau-Ponty (1971), outro importante discpulo de Husserl, a Fenomenologia 
existe como movimento, antes de alcanar uma completa conscincia filosfica. Ela est a 
caminho h muito tempo; seus discpulos se encontram em todos os lugares... (p.f Se 
fssemos esprito absoluto a reduo no seria problemtica. Mas j que, pelo contrrio, 
estamos no mundo, j que mesmo nossas reflexes tm lugar no fluxo temporal que procuram 
captar, no h pensamento que envolva todo pensamento. (p. II.) 
 por isso que a Fenomenologia no deve ser considerada como acabada naquilo que j pde dizer 
de verdadeiro. O seu inacabamento e o contnuo prosseguimento de sua marcha so inevitveis, pois 
ela pretende desvendar a razo e o mundo e estes no so um problema, mas constituem um 
mistrio. Portanto, no se trataria de dissip-lo por meio de alguma soluo, pois ele est aqum 
das solues. Ela, ento, desdobrar-se- indefinidamente e ser, como diz Husseri, uma meditao 
infinita (Merleau-Ponty, 1971, p. 18). 
A Fenomenologia, portanto, apresenta-se como um mtodo filosfico peculiar, que no 
chega  elaborao de um sistema filosfico completado. Alm disso, ela 
busca as essncias na existncia... para ela o mundo est sempre a, antes da reflexo, 
como uma presena inalienvel e cujo esforo est em encontrar esse contato ingnuo com o 
mundo para lhe dar um status filosfico (MerleauPonty, 1971, p. 5)... 
22 YOLANDA CINTRO FORGHIERI 
 a ambio de igualar a reflexo  vida irrefletida da conscincia. (Idem, 
p. 13.) 
Embora Husserl tenha considerado a Fenomenologia e a Psicologia como cincias distintas, refere-
se  possibilidade de relao entre ambas, dando, no incio, prioridade  Fenomenologia, ao 
considerar que a Psicologia, como cincia terica, encaminha-se, necessariamente, para a 
Fenomenologia. Mas, na medida em que amadurece seu pensamento, deixa transparecer a 
existncia de uma relao de reciprocidade ou de entrelaamento entre ambas, como quando, em 
sua ltima obra, publicada originariamente em 1938 (Krisis), afirma que a subjetividade 
transcendental  intersubjetividade, fortalecendo a idia de que os limites entre o transcendental e o 
emprico j no so mais completamente distintos, pois h uma interseco entre ambos. 
A inicial oposio entre o transcendental e o emprico, o ontolgico e o ntico, foi 
tomada por Husser!, apenas como um ponto de partida encobrindo um problema e um secreto 
relacionamento entre as duas espcies de pesquisa (Merleau-Ponty, 1973, p. 76). 
As formulaes fornecidas por Husserl e esclarecidas por Merleau-Ponty a respeito do inter-
relacionamento entre a Fenomenologia e Psicologia, levam, tambm, a uma considerao mais 
ampla da Psicologia, de acordo com a qual ela  uma cincia cujo conhecimento  peculiar e 
paradoxal; no  indutivo, no sentido que esta palavra tem para os empiristas e nem  reflexivo no 
sentido que tem para a Filosofia tradicional. O conhecimento psicolgico  reflexo e ao mesmo 
tempo vivncia;  conhecimento que pretende descobrir a significao, no contato efetivo do 
psiclogo com sua prpria vivncia e com a de seus semelhantes. 
